IA transforma burocracia em eficiência no setor público

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A inteligência artificial (IA) já é uma realidade em diferentes esferas do setor público, refletindo uma mudança de postura em relação à adoção de tecnologias emergentes. Antes vista como uma inovação distante, a IA vem se consolidando como uma ferramenta estratégica e, em muitos casos, como um caminho sem volta em direção à modernização dos serviços públicos e eficiência no governo.

De fato, a expectativa é alta: 62% dos funcionários públicos antecipam um impacto significativo da inteligência artificial e acreditam que a ferramenta deva aumentar a produtividade na maioria ou em todas as áreas de suas organizações. Essa percepção é um dos insights revelados pela pesquisa "Reimaginando o futuro da produtividade do setor público", realizada pela Economist Impact e patrocinada pelo SAS, líder global em dados e IA, que analisou as oportunidades e obstáculos da reforma da produtividade do setor público.

A aplicação da tecnologia no âmbito governamental abrange desde os processos mais básicos até as soluções mais sofisticadas.

 

No Brasil, embora a maioria das agências governamentais já tenha digitalizado seus arquivos, o uso da IA ainda está em estágio inicial, voltado principalmente à organização e interpretação de dados históricos em larga escala, processo fundamental para qualquer iniciativa baseada em inteligência artificial.

A partir dessa base, a IA já permite a automatização de processos que antes consumiam tempo e recursos humanos, onerando o poder público, como a checagem de conformidade de documentos para um benefício social ou a recepção de processos judiciais. Tarefas repetitivas e manuais como essas podem ser otimizadas com IA e, além de acelerar o atendimento aos cidadãos, contribuir para redução de erros e aumento da transparência, ainda libera servidores públicos para atividades mais estratégicas e que exigem maior discernimento humano.

À medida que a maturidade analítica avança, a IA se torna uma ferramenta para a geração de novas compreensões, ao permitir que gestores entendam tendências e identifiquem gargalos com mais facilidade. 

Em um departamento de trânsito, por exemplo, a análise de dados de acidentes pode revelar padrões geográficos ou sazonais, subsidiando a criação de políticas públicas mais eficazes, como a instalação de redutores de velocidade em pontos críticos. A IA, nesse contexto, funciona como um "retrovisor inteligente", que nos permite aprender com o passado para moldar um futuro mais seguro e eficiente.

 

Mas a IA vai além da análise do passado. Sua capacidade preditiva é o ponto alto da maturidade analítica. Ao prever eventos futuros com base em dados históricos, o governo pode agir proativamente, como ao identificar a probabilidade de um processo de compra ser impugnado ou ao calcular a chance de sucesso de uma ação judicial contra o Estado. Isso permite que as equipes se preparem e mitiguem riscos, uma capacidade que vai ser um divisor de águas no setor.

Importante deixar claro que o retorno do investimento em IA nem sempre é financeiro, embora este seja sempre considerável. Prevenir fraudes fiscais, por exemplo, injeta dinheiro nos cofres públicos, mas o impacto da IA vai muito além disso. A tecnologia pode salvar vidas ao identificar pacientes com maior risco de agravamento de saúde e evitar a evasão escolar, garantindo um futuro mais promissor para os jovens e, consequentemente, para a sociedade. Portanto, medir a efetividade das ações, mesmo que elas não se traduzam diretamente em cifras, é fundamental para demonstrar o valor da IA, a eficiência trazida por ela e incentivar sua adoção nas esferas governamentais.

Embora a adoção da inteligência artificial ainda ocorra em ritmos variados, a transformação digital já é uma realidade crescente no setor público. De acordo com a pesquisa da Economist Impact, 24% das organizações governamentais já implementaram amplamente tais iniciativas, 22% planejam adotá-las no próximo ano e outros 50% já iniciaram a implementação parcial.

A demanda crescente dos cidadãos por serviços mais ágeis e eficientes, aliada ao interesse político em demonstrar resultados e à oferta de soluções por empresas de tecnologia, vem criando um ambiente favorável para a rápida disseminação da IA no setor público. E, as novas fronteiras da IA, como a IA generativa e os agentes de IA, prometem revolucionar ainda mais o setor.

Dados sintéticos, por exemplo, permitem o treinamento de modelos sem expor informações sensíveis dos cidadãos ou aumentar a quantidade de dados de grupos sub-representados para garantir que suas necessidades sejam atendidas. Assistentes virtuais podem tornar informações complexas mais acessíveis para cidadãos de baixa escolaridade, democratizando o acesso aos serviços públicos. Os agentes de IA, por sua vez, podem automatizar fluxos de trabalho internos, otimizando a rotina dos servidores.

Ao abraçar a IA com responsabilidade, ética e uma visão estratégica, o governo pode aumentar sua eficiência e construir uma relação de maior confiança e proximidade com a população, com serviços mais ágeis, justos e personalizados para todos. O futuro do setor público é, sem dúvida nenhuma, inteligente.

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About Author

Aline Riquetti

Cientista de dados e professora de pós-graduação

Aline Riquetti é formada em Estatística pela UFMG e possui pós-graduação em Business Intelligence pelo IESB. Reside em Brasília, onde trabalha no SAS Brasil, e também atua como professora de pós-graduação em Ciência de Dados no IESB. Há cerca de 8 anos, trabalha com análise de dados a partir do uso de técnicas de Mineração de Dados e Aprendizado de Máquinas aplicadas especialmente para detecção de fraudes e abusos, prevenção à lavagem de dinheiro, e temas diversos correlatos à gestão pública.

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