Das periferias para o mundo, a ginasta Daniele Hypólito e a futebolista Formiga falam sobre sua construção como atletas de alto rendimento, e o impacto do esporte para além das suas vidas durante o Women Empowerment Day 2024
O esporte brasileiro tem inúmeras trajetórias que transcendem as conquistas dentro das quadras, campos e ginásios. Entre elas, destacam-se as histórias inspiradoras de Daniele Hypólito e Miraildes Maciel Mota, a Formiga, duas atletas que não apenas romperam barreiras em suas modalidades, mas se tornaram símbolos de como o esporte pode ser um poderoso instrumento de transformação social.
As atletas falaram sobre a construção que as levou ao pódio, a importância das oportunidades, bem como os desafios enfrentados durante suas carreiras na última edição do Women Empowerment Day, em 2024. Em conversa mediada por Fernanda Arantes, apresentadora e narradora esportiva, elas levaram a audiência por uma viagem na história, desde o início da prática esportiva na infância até os dias atuais, e trouxeram suas visões sobre questões de gênero e sociais no esporte.
Futebolista Miraildes Maciel Mota, a Formiga (foto divulgação)
"Busquei a energia negativa do começo [da minha trajetória]e a transformei em energia positiva", disse Formiga, sobre os preconceitos e abusos que sofreu ainda adolescente, principalmente por parte de homens, por já mostrar seus talentos no futebol. "Comecei a entender que qualquer problema ou dificuldade que surgisse seria café pequeno diante do que aconteceu lá atrás," pontuou a atleta. "Talvez eu tenha tirado tudo aquilo de letra, mas não foi nada fácil."
Além do preconceito e machismo que comumente atravessam mulheres atletas, há também a questão social: "O alto rendimento é bem difícil, porque muitas vezes, os atletas vem de famílias humildes: os que se destacam por ter uma condição financeira melhor são poucos", disse Daniele.
Histórias extraordinárias
Nascida em uma família de baixa renda em Santo André, no ABC paulista, Daniele encontrou na ginástica artística mais do que uma atividade física, um caminho para transformar sua realidade. Desde a mudança para o Rio, cidade onde conseguiu realizar seu sonho de trilhar uma carreira no esporte, acumulou uma série de feitos até então inéditos na ginástica brasileira.
Durante seus anos de competição, Daniele esteve em cinco edições dos Jogos Olímpicos com diversos resultados expressivos, tendo conquistado o título de vice-campeã mundial no solo em 2001 e nove medalhas em Jogos Pan-americanos: três pratas e seis bronzes. E destacou a importância de ter uma rede de apoio neste processo:
"Além de ter realizado meus próprios sonhos, meu irmão também [entrou no esporte]e tivemos a família inteira vindo junto para concretizar algo em que todo mundo acreditava", disse a ginasta, ressaltando que o apoio de certas figuras do esporte - como Ronaldo Fenômeno, que a apoiou financeiramente para que ela pudesse participar de competições - também foram fundamentais neste sentido.
"Se a ginástica brasileira chegou aonde está hoje, temos muito a agradecer ao Ronaldo", ressaltou Daniele.
Ginasta Daniele Hypólito (foto divulgação)
A história de Formiga é outro exemplo inspirador do poder transformador do esporte. Nascida em Salvador, começou sua jornada jogando futebol nas ruas, em meio a preconceitos de uma época em que o futebol feminino ainda era visto com desconfiança no Brasil. Seu talento e perseverança a levaram à seleção brasileira aos 17 anos e participações em sete Copas do Mundo e sete Olimpíadas.
Figura emblemática, Formiga se tornou um ícone do futebol feminino mundial, quebrando paradigmas e abrindo portas para novas gerações de meninas que sonham com o futebol. Apesar dos avanços, a atleta frisou que existem desafios significativos para democratizar o acesso ao esporte no Brasil, como a desigualdade de gênero no esporte.
"Acho que viver em um país tão machista quanto o Brasil atrapalha esta evolução em termos de igualdade de gênero, salarial e de oportunidades, ainda mais no futebol feminino, já que quem realmente manda no mundo é o futebol masculino", acrescentou Formiga.
"Hoje, a minha luta fora do futebol é pela igualdade, pelo respeito e em mostrar que, se formos capacitadas, podemos fazer três ou mais coisas ao mesmo tempo", disse a futebolista. "Acho que é preciso se renovar, desligar o botão do 'antigamente', e sintonizar no novo", ressaltou, sobre a necessidade de mudança de paradigmas em relação ao esporte feminino.
Outro desafio abordado pelas atletas foi a maternidade. Segundo Daniele, a dificuldade em conciliar o esporte de alto rendimento e ter uma família é real. "É quase impossível para uma mulher ser mãe e continuar treinando", disse, acrescentando que falar sobre o desejo de maternidade aliado à idade fez com que ela tomasse a decisão de se afastar das competições.
"[Tomar esta decisão] foi o que me ajudou a desenvolver uma visão de atuar no esporte, sem estar competindo", acrescentou ela, em referência ao seu trabalho posterior como comentarista esportiva e artista circense.
Sobre as realidades de ser mãe e atleta, Formiga pontuou que estas dificuldades podem inclusive inviabilizar esta escolha, como ocorreu no caso dela. "Eu não sabia se teria apoio, empurrei este sonho para a frente e acabou não acontecendo. Mas, desejo que as pessoas que lideram organizações - presidentes de clubes, de confederações, entre outras, entendam que, assim como eles desejam ser pais, estas mulheres também desejam ser mães," frisou a futebolista.
Agentes de mudança
Ao longo da conversa no WED, as histórias de Daniele e Formiga reforçaram que o esporte, quando acessível e bem estruturado, oferece muito mais do que atividade física. Proporciona disciplina, trabalho em equipe, resiliência e autoestima - habilidades fundamentais para o desenvolvimento humano e profissional. Além disso, cria oportunidades que podem alterar significativamente as perspectivas de vida de jovens em situação de vulnerabilidade.
Porém, as atletas pontuaram em diversos momentos da conversa que a questão da valorização do esporte no Brasil, com apoio concreto para que mais meninas possam encontrar uma modalidade para chamar de sua, ainda precisa avançar. "Nem todos os clubes oferecem a estrutura necessária. Mas isso é questão de tempo: estamos em um processo de construção", disse Formiga.
"Acredito que os patrocinadores podem olhar para o futebol feminino de uma maneira errada, por acharem que [mulheres não têm]condições de estarem no topo. Já provamos que conseguimos, mas [chegar no topo]só depende realmente de estrutura," complementou.
O impacto das trajetórias de Formiga e Daniele vai além das medalhas e recordes. Apesar dos desafios, elas provaram que o esporte pode ser um elevador social eficiente, capaz de transportar talentos das periferias para os maiores palcos esportivos do mundo. Mais do que isso, demonstraram que o verdadeiro valor do esporte está em sua capacidade de formar cidadãos completos, conscientes de seu papel na sociedade - e, no caso delas, mulheres extraordinárias.
Conheça a história e as mudanças para a edição de 2025 do WED na entrevista com a Thais Cerioni, head de marketing do SAS, Women Empowerment Day: história e mudanças para 2025
Serviço - SAS Women Empowerment Day 2025
Data: 18 de março, das 8h30 às 13h30
Local: Casa Pompéia, em São Paulo
Inscrições: Women Empowerment Day 2025 | SAS